VENDA SUA IDÉIA EM 10 SLIDES
A falta de objetividade é uma praga das apresentações.
Acredite: você vai brilhar se for direto ao ponto.
Por Normann P. Kestenbaum
Revista Você S/A
Janeiro/2003
Outro dia fui chamado em caráter de emergência pelo CEO de uma grande
empresa multinacional. O problema dele? Ele tinha em mãos uma apresentação
com dezenas de slides, mas só dispunha de meros 5 minutos para mostrá-la
ao CEO mundial. Poucos dias depois acabamos com apenas 10 slides.
Parece pouco, mas eles continham tudo que era necessário para meu
cliente fazer bonito diante do chefe. A pergunta que fica no ar é:
por que sua equipe não apresentou os 10 slides desde o começo? Em
geral, porque confundem a quantidade de slides com a qualidade da
apresentação. Eu prefiro a concisão. Quanto menos, melhor. A regra
é expor as idéias em poucas palavras - ou, melhor, no mínimo de slides
possível. Isso significa ir direto ao ponto, ser exato, preciso nas
informações. A falta de concisão é um problema coletivo. As empresas
perdem horas e mais horas em reuniões que poderiam ser resolvidas
rapidamente. Por outro lado, todos os executivos estão saturados pela
sobrecarga de informações. Ninguém mais tem tempo para apresentações
de duas horas. O tempo tornou-se um bem valiosíssimo no meio corporativo.
A última coisa que seu chefe, cliente ou fornecedor quer é um encontro
ao qual você comparece munido de toneladas de dados e informações
para "mostrar serviço". Lamento informar, mas o tiro sairá pela culatra.
Em outras palavras, em vez de "fazer bonito", você estará se depreciando
porque desperdiçará o tempo e a paciência de todos. Parta do princípio
de que seu chefe vai lhe agradecer a informação que não recebeu. Isso
mesmo: a informação que não recebeu. Sabe que informação é essa? A
desnecessária, que tomaria inutilmente seu tempo e não era vital para
sua tomada de decisão. Pense na figura da agulha no palheiro. O palheiro
é a informação desnecessária e a agulha é a informação vital. Como
se chega lá? Veja a seguir minha sugestão de metodologia:
VOCÊ DETÉM O CONHECIMENTO. Essa é a boa notícia. O que importa
está à mão, ou melhor, na cabeça, a sua cabeça. Posso
lhe garantir que não está nos dados, nas planilhas, nos relatórios
sem fim. Mais especificamente, está no que você pensa dos mesmos.
Estamos falando de conhecimento: as conclusões, a visão e os rumos
a tomar sobre o tema em pauta. Não se debruce inutilmente sobre
dados e informações de sua área de atuação. Você transita diariamente
por eles e está mais que familiarizado com os mesmos. Extraia com
disciplina seus pensamentos sobre o assunto e coloque-os no papel.
ESTABELEÇA O DNA DE SUA MENSAGEM. Como no corpo humano, necessariamente
deve haver um DNA que traga a essência de sua mensagem e esteja presente
em todas as partes de sua apresentação, garantindo consistência ao
todo. Uma dica: a maior chance de estabelecer nesse estágio o DNA
é concentrar-se na conclusão, no objetivo, na direção para onde você
quer conduzir a audiência. É nessas zonas que certamente estará residindo
o DNA.
ESQUEÇA OS DETALHES. A segunda boa notícia é que as etapas
anteriores são as mais importantes do processo. Só que o trabalho
continua. Pensamentos e anotações precisam ser organizados. Eles ainda
são o que chamamos de conhecimento não estruturado. Portanto, vamos
à próxima fase. Primeiro, organize tudo em blocos, não trabalhe
em detalhes. Em seguida, selecione apenas os blocos relevantes e confira
se você não deixou de incluir algum.
Atenção: estamos falando de relevância muito antes de envolver o PowerPoint.
Isso vai te poupar muita energia, pois você só gastará tempo montando
a apresentação com conteúdo de fato relevante. Tenho visto muitas
pessoas se preocuparem com a qualidade da informação somente quando
já estão no ambiente do PowerPoint. Perdem, assim, um tempo precioso
ao descartar slides que consumiram muito trabalho para serem montados!
TRABALHANDO O CONTEÚDO! Chegou a hora de incluir dados e informações.
Mas, cuidado, só interessam aqueles que efetivamente dão sustentação
aos blocos, às suas conclusões. Em outras palavras, seja rigorosamente
seletivo. A turma por aí adora inundar perigosamente esse momento
com muita coisa desnecessária. Lembre-se: a regra é a concisão. Isso
não significa que você não precise estudar os dados. Tenha-os na ponta
da língua caso seja indagado.
ORGANIZE OS BLOCOS. Entramos na etapa crítica, a seqüência
lógica dos blocos. É fundamental que você vá direto ao ponto, sem
rodeios. Esqueça o pensamento linear de nossa época de ginásio, aquele
que pregava a seqüência de índice, introdução, observações iniciais,
descrição do conteúdo, comentários finais e conclusão. Isso não serve
mais para o mundo corporativo atual. Não existe paciência e tempo
para tal. Não faça seu chefe ir concluindo aos poucos onde você quer
chegar ao longo de uma demorada exposição. Adote o pensamento estrutural:
posicione seu chefe desde o início sobre a conclusão e sustente-a
solidamente durante a apresentação.
CONHEÇA A PLATÉIA. As audiências são diferentes, cada uma tem
sua linguagem e você deve "traduzir" sua pequena obra para essas linguagens.
Procure conhecer com o máximo possível de antecedência as características
das mesmas e adapte a terminologia. Você certamente terá pouca
chance de pesquisar profundamente múltiplas audiências, portanto,
um bom caminho é informar-se sobre o tipo de atividade, formação profissional
e nível hierárquico das pessoas. São indicadores quase sempre
acessíveis e de grande impacto no direcionamento da mensagem.
Outro ponto a lembrar é que a atenção é um dos recursos mais escassos
da atualidade. Como eu já disse, sua audiência estará literalmente
saturada, e, se você não sacudi-la nos primeiros dois minutos, ela
simplesmente não dará ouvidos a você. Isso se resolve sendo criativo,
ousado, impetuoso. Arrisque-se. A ausência dessas iniciativas tem
resultado certo: uma platéia desatenta.
FINALMENTE, O POWERPOINT. Chegamos à mídia que vai expressar
o trabalho desenvolvido até agora. Veremos algumas regras básicas.
Use o mínimo de textos por slide (três ou quatro frases curtas,
no máximo), esqueça a transição de slide (cada slide com um movimento
diferente é insuportável) e prefira cores em tons pastel. As cores
são um detalhe importante. Use as mesmas para toda a apresentação.
Telas multicoloridas cansam, poluem e estragam a harmonia que se quer
dar ao conteúdo. Na hora da animação, aplique o mesmo conceito para
toda a apresentação. Procure variar o mínimo. Seja o mais visual possível
para facilitar a tarefa de absorção da audiência. Para tanto, use
imagens (evite ao máximo ícones) que hoje são facilmente acessíveis
pela Internet em programas de busca, como Google, Yahoo! e semelhantes.
Não crie slides poluídos. Você levará a audiência a tentar lê-los
em vez de prestar atenção em você. Uma apresentação é para ancorar
seu discurso e não para ser lida!!
COMPRIMA AINDA MAIS. Terminado o trabalho no PowerPoint, faça
uma última tentativa de compressão do conteúdo. Verifique se há espaço
para mais concisão preservando o entendimento. Pode não parecer, mas
você sempre encontrará o que cortar. O princípio básico desse processo
é não comprometer jamais a clareza do conteúdo. Isso é prioridade
em todos os momentos desse trabalho. Não existe a menor possibilidade
de alguém aderir a suas propostas sem entendê-las previamente.
ENFIM, O GRANDE DIA. Procure marcar a apresentação pela manhã,
pois há a chance de seus interlocutores estarem com cabeça fresca
e lhe dar maior atenção. Depois do almoço (as pessoas estão sonolentas)
ou no fim do dia (elas estarão saturadas pelos problemas cotidianos),
a coisa vai complicar. Leve backup de tudo e chegue com uma hora
de antecedência para checar o equipamento, a sala, as tomadas e conexões,
a iluminação, etc., pois a lei de Murphy está sempre rondando o ambiente
das apresentações.
Tenho utilizado essa metodologia há vários anos com presidentes e
diretores de grandes empresas. Minha experiência mostra que ela garante
objetividade e foco às reuniões. Tenho certeza de que, se você usá-la
em sua próxima apresentação, vai acabar antes do prazo concedido e,
muito melhor, impressionará o chefe. O elogio eu garanto!
Normann P. Kestenbaum
Diretor Sócio
Baumon Knowledge Design
www.baumon.com.br